Revista Online Conexao Afro

A SEPPIR está jogando no time de Ganga Zumba.

In Polítca on Outubro 15, 2011 at 9:23 am

N°o1- 15 de outubro -Guaíba- RS –Brasil

REVISTA CONEXÃO AFRO

14/10/2

Por Gilberto Batista Campos e Joselício Júnior*

Os atuais mandatários da Seppir – Secretaria Especial de Promoção da Igualdade Racial – entraram para valer em campo em defesa dos interesses da FIFA, das empreiteiras e do aparato militar-repressivo que volta suas garras afiadas contra a população civil, de maioria negra. Salvador e Rio de Janeiro foram as cidades escolhidas para, em 03 e 04 de outubro, respectivamente, sediarem o Seminário “Promoção da Igualdade Racial no Contexto dos Grandes Eventos”[1]

Ainda de acordo com a matéria do portal da Seppir, durante o Seminário “os estados da Bahia e do Rio de Janeiro assinam um protocolo de intenções com a União, através da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial da Presidência da República (Seppir/PR), visando a implementação de ações conjuntas que assegurem a inclusão da população negra nas atividades decorrentes dos grandes eventos esportivos mundiais”.

Mais ainda, o evento contou com uma tabelinha entre o governo brasileiro e o norte-americano. A ex-prefeita, Shirley Franklin – que na organização dos jogos de Atlanta de 1996 – foi convidada para falar da “exitosa” experiência da cidade americana, apresentada como “modelo de inclusão racial” durante os jogos Olímpicos. Se o modelo americano de “inclusão racial” deu certo em Atlanta, o certo é que não foram poucos os africanos-americanos que aderiram ao movimento No Games Chicago, contra a candidatura de Chicago para sediar as Olimpíadas de 2016[2].

Porque a SEPPIR silencia quando o assunto é a política prisional do Império contra os africano-americanos (segundo o sociólogo Loic Wacquant, nos Estados Unidos, nos dias atuais, para 8 negros presos, há 1 branco)[3], a manutenção de presos políticos (Múmia Abu Jamal, o líder indígena Leonard Peltier e os cinco presos cubanos, René Gonzalez – solto recentemente – Antônio Guerreiro, Gerardo Hernandéz, Ramón Labañino e Fernando Gonzalez), a violência praticada por rebeldes e forças da OTAN contra civis afrodescendentes pretensamente ligados à Kadaffi, na Líbia, ou ainda, sobre o fechamento do campo de concentração de Guantánamo (uma das promessas de campanha de Barack Obama)? É possível separar a política de agressão do Império contra nossos irmãos africano-americanos e seus reiterados atentados à soberania dos povos das políticas de aproximação com o governo brasileiro e suas reiteradas tentativas em transformá-lo em correia de transmissão da política do imperialismo para a América Latina?

Os Seminários sobre “Igualdade Racial no Contexto dos Grandes Eventos” foram realizados através de parceria entre o Ministério do Esporte, os governos da Bahia e do Rio de Janeiro, do Consulado Geral Norte-Americano no Rio de Janeiro e a Federação das Indústrias do Estado do Rio. Os seminários integram, ainda, o Plano de Ação Conjunto entre o Governo Brasileiro e o Governo dos Estados Unidos da América para a Eliminação da Discriminação Étnico-Racial e a Promoção da Igualdade e que a Seppir, o Ministério das Relações Exteriores (MRE) e o Departamento de Estado (EUA) coordenam.

A geopolítica da Seppir privilegia o “núcleo duro’ das políticas do Império, o Departamento de Estado dos Estados Unidos, em detrimento do diálogo e da cooperação com países como Bolívia, Venezuela, Equador e Colômbia – que já desenvolvem e discutem – a implementação de políticas públicas voltadas a afros e indígenas. Estes não foram convidados a participar destas iniciativas “benfajezas”, patrocinadas pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos. Para nós, não é mera coincidência que as políticas de “lei e ordem” e “tolerância zero” que se expressam na Política Nacional Anti-Drogas para a América Latina, tem justamente como seus principais entusiastas o Pentágono e o Departamento de Estado Norte-americano e que elas, hoje, sejam fundamentais para justificar ideologicamente as ações terroristas do estado brasileiro contra a população civil negra nas favelas e periferias do país.

Trocando em miúdos, os Seminários são uma cortina de fumaça às políticas de faxina étnica implementadas pelo estado brasileiro – despejos, remoções e extermínio da população civil negra – com o objetivo de segregar os territórios urbanos, das grandes cidades, para atender aos interesses de empreiteras, do capital imobilitário e de empresários [4]. Estas empreiteiras e empresários que ganham rios de dinheiro com a especulação imobiliária – com a tranferência de polpudos recursos do poder público – apoiam entusiasticamete a política de repressão violenta ao tráfico de drogas com a expulsão e controle da população civil, seja através da remoção ou do extermínio puro e simples.

O espaço urbano como fonte de negócio e lucro desenfrado precisa disciplinar seus inquilinos “indesejáveis” – afro-descendentes, indígenas, pobres – que reclamam cidadania e direitos sociais. A lógica é da formação de territórios segregados, apartados de condições mínimas de cidadania e inclusão social. A ocupação militar dos morros, favelas, suburbios e periferias e a política repressiva e de “tolerância zero” contra negros e pobres é o aprofundamento de um verdadeiro apartheid social que joga contra os avanços democráticos que o movimento negro, em trinta anos de luta, conquistou. Portanto, o que assistimos hoje é todo um conjunto de políticas – políticas de faxina étnica – que através de violentas intervenções urbanas em nome dos Mega Eventos (Olimpíadas e Copa do Mundo) vem atender os interesses de empresários privados, políticos corruptos, cartolas e mandatários das entidades esportivas.

Os representantes da população negra no poder, em particular as instâncias de Promoção da Igualdade Racial, em todo território brasileiro, parecem tender a serem absorvidos pelo branqueamento institucional e assimilam uma visão eurocêntrica, elitista e individualista inscrita, por mais de quinhentos anos de dominação, nas estruturas do estado neocolonial burguês.

Como dizia Malcom X em relação aos líderes negros integracionistas, nos Estados Unidos, a forma como se deu a institucionalização do movimento negro no Brasil – seja pela ocupação de cargos nos governos ou, por outro lado, através das Organizações Não-Governamentais – cumpre o papel de “tranqüilizar” a elite branca e afastar qualquer perigo de que uma rebelião negra tome de assalto os palácios do poder (Autobiografia de Malcom X).

Desta maneira, a Seppir faz o jogo da elite burguesa ao expor a falsa imagem de inclusão de homens e mulheres negras na mídia mundial, através dos empregos temporários oferecidos durante os mega eventos (Copa de Mundo e Olimpíadas), quando, na realidade, as condições de acesso à saúde, educação, moradia e direitos sociais entre negros e brancos continuam desiguais. A SEPPIR silencia diante da violência racista contra a população civil negra – pratica de forma indiscriminada em nome da guerra ao tráfico – as políticas de remoção, despejos e as Unidades de Polícia Pacificadoras. Afinal, para um setor do movimento negro a formação de uma elite negra é o meio mais eficaz de lutar contra o racismo e facilitar a “integração” do nosso povo à ordem burguesa. Para nós, apenas uma luta contra o racismo se inscreve na formação de uma nova ordem social pós-classista e pós-racial capaz de incluir todos os negros e negras.

No Congresso Nacional, algumas vozes se levantam contra os absurdos contidos na Lei da Copa. É o caso do Senador Randolfe Rodrigues (PSOL-AP) que foi a tribuna denunciar os absurdos da Lei da Copa, outorgada ao FIFA ao estado brasileiro, ferindo nossa soberania nacional[5]. Para termos ideia, a proibição da venda de bebidas alcoólicas nos estádios (proibida pela Lei do Torcedor) será suspensa a pedido da marca de bebidas patrocinadora da Copa do Mundo. Outro absurdo é o fim da meia entrada aos estudantes. Outro parlamentar que vem se destacando a frente desta luta contra os desmandos da FIFA, na Câmara Federal, é Romário Faria (PSB-RJ)[6].

A SEPPIR vê na Copa e nas Olimpíadas a possibilidade de incluir afrodescendentes, capacitando-os para as oportunidades de emprego e renda que surgirão. Também preocupa a SEPPIR que os reiterados casos de racismo, na Europa, se reproduzam no Brasil, e para isso, contam com o apoio da toda poderosa FIFA.

Em primeiro lugar, dada a desproporção do que empreiteros e empresários embolsarão com estes eventos – para o qual o governo brasileiro e os governos estaduais, de forma pouco transparente, darão polpudas contrapartidas com dinheiro de nossos impostos – e os benefícios gerados para o conjunto da população negra nos grandes centros urbanos, chega a ser risível as intenções da SEPPIR. Segundo a Secretaria de Comunicação da Presidência da República são R$ 25 bilhões o valor desembolsado pelos cofres públicos[7]. Este valor deve aumentar dado que a iniciativa privada exige por parte do poder público maiores e maiores contrapartidas – entenda-se “garantias” para seus investimentos [8].

O povo pagará – como aconteceu com o Pan-americano no Rio, em 2007, mais um vez esta conta? E o custo social? Quantos jovens negros serão mortos ou alvo de abordagens policiais violentas em nome da segurança necessária para garantir a realização da Copa do Mundo e das Olimpíadas? Será que já nos esquecemos da ação poicial, as vésperas do XV Jogos Panamericanos, no Rio, que resultou  no massacre do Complexo do Alemão em operação da PM do Rio com apoio da Força Nacional de Segurança do Governo Lula?[9]

Em segundo lugar, o racismo no futebol não é algo específico dos gramados europeus. No Brasil, quem acompanha as quatro linhas e freqüenta os estádios pode acompanhar de perto manifestações hostis contra jogadores afro-descendentes ou, ainda, xingamentos racistas contra as torcidas do Flamengo e Corintians. Alguns casos chegaram a ganhar publicidade como o caso do jogador Antônio Carlos, do Palmeiras, que chamou Jeovânio, do Grêmio, de “macaco”. Em nenhum momento a SEPPIR procurou a CBF e o seu déspota Ricardo Teixeira cobrando ações afetivas contra este tipo de manifestação racista nas quatro linhas. Excetuando-se o caso do jogador Grafite, este casos são levados a sério ao ponto de chegar ao Congresso Nacional, ao poder público, e merecer algum tipo de ação. Em suma, o que quer a SEPPIR é “fazer média” com a toda-poderosa FIFA e o capo Ricardo Teixeira.

A atual gestão da SEPPIR optou por jogar no time de Ganga-Zumba. Para os mandatários da SEPPIR promover a igualdade racial é privilegiar poucos em detrimento de muitos. Esta é uma versão neoliberal das políticas de ação afirmativa tão necessária à democracia brasileira. No entanto, ou temos democracial real, com participação de todos, em que as políticas de ação afirmativa visam contribuir para acelerar a integração da comunidade negra, ou faremos o jogo de Ganga-Zumba, de conciliação com esta ordem social racista e excludente. Nós somos do time de Zumbi: queremos liberdade para todos! Fraternidade com igualdade, liberdade com justiça! Estamos ainda no começo do primeiro tempo, o povo negro merece respeito e vai virar o jogo contra os sehores da ordem neocolonial, enfrentando, nas ruas, a faxina étnica e o racismo!

Gilberto Batista Campos é historiador, Coordenador Geral do Círculo Palmarino e militante do movimento negro do Espírito Santos. Joselício Júnior – Juninho é jornalista, Coordenador Nacional de Finanças do Círculo Palmarino e coordenador do Ponto de Cultura “De periferia para periferia- valorizando a cultura afro-brasileira” em Embu das Artes, SP.

Enviar noticias:conexaoafro@gmail.com

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