Revista Online Conexao Afro

A opção do jornalismo

In Conexão Afro, negritude on Maio 26, 2011 at 12:48 am

N°o 1- 26   de  Maio ano 2011 -Guaíba- RS -Brasil
REVISTA CONEXÃO AFRO

A opção do jornalismo

coletiva

Por Poti Silveira Campos

Vera Daisy Barcellos, 62, é uma mulher de fases e é por etapas que descreve a própria existência. “Afinal, foi assim que aconteceu”, explica. Quase metódica, mas impregnada da emoção de quem vive intensamente o que faz, principalmente em relação ao jornalismo. Vera Daisy – como gosta de ser chamada – se destacou na profissão como uma das mulheres pioneiras na cobertura esportiva no Estado e como militante negra e de gênero. Hoje, segunda suplente na direção do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio Grande do Sul, ela garante estar “longe de parar”.

Casada há 30 anos com o aposentado Ricardo Pereira Costa – o casal tem o filho Juliano, 26, professor de educação física e músico –, a jornalista reside com a família na charmosa Rua Santa Terezinha, no Bairro Santana, em Porto Alegre. Na verdade, faz nada menos do que 58 anos que Vera Daisy mora na Santa Terezinha. E foi nesta mesma rua que ela começou – ainda menina – a lutar pela condição humana de mulheres e de negros. A mãe, Eva Barcellos, era empregada doméstica na família do general Floriano de Oliveira Faria. Lá pelas tantas, Eva decidiu trabalhar como cozinheira de restaurante, mas deixou a menina sob os cuidados dos Oliveira Faria. “As famílias brancas pegavam crianças negras para cumprir a função de doméstica. Comigo foi diferente”, diz.

Foram os irmãos de criação de Vera Daisy – o hoje economista Álcio e médico Adyr – que fizeram a diferença. Os dois pressionaram os pais a colocar a menina na escola. E lá se foi Vera Daisy cursar o que se chamava Primário no Grupo Escolar Luciana de Abreu, na Avenida Venâncio Aires. Terminado o Primário, os pais de criação pretendiam que ela parasse com os estudos. “Eu já sabia ler e escrever. Para eles, estava bom.” Não parou. Somado à insistência de Álcio e de Adyr, Vera Daisy estava se saindo bem na escola. O general Floriano e a mulher, Ceci, concordaram e a garota encarou o exame de admissão para o Colégio Estadual Pio XII. Passou.

Normalista, não

Uma das explicações para o bom desempenho escolar talvez fosse o gosto da jovem pelo hábito de ler. Havia uma biblioteca na casa de dois pisos do general. Na calada da noite, quando todos dormiam, Vera Daisy descia na ponta dos pés até a sala onde pesadas estantes abrigavam centenas de volumes. Ali ficava horas e horas, seguidamente até o amanhecer. E, enquanto lia, amadurecia as idéias. Algumas delas, é claro, eram idéias do contra: “Toda adolescente negra que estudava naquela época virava professora. Eu não queria ser normalista, não queria ser professora”, afirma. Vera Daisy queria fazer algo diferente. Sonhou com engenharia mecânica. “Mas havia a matemática.” Optou pelo Jornalismo e encontrou nova oposição de Floriano e Ceci.

Era 1967. Em janeiro, o governo de Humberto de Castelo Branco (1897 – 1967) havia imposto uma Constituição ao país, legitimando o regime militar. Em julho, o marechal foi morto em um acidente aéreo nunca explicado. Artur da Costa Silva (1899 – 1969) é escolhido o sucessor e as coisas ficam mais difíceis. Tempos duros. E Vera Daisy teimando em ser jornalista. “Começou meu inferno zodiacal”, brinca a libriana. Floriano e Ceci insistiam: “O que tu vais fazer numa profissão dessas? Isto não é coisa para uma mulher direita.” Álcio e Adyr seguiam dando apoio à caçula. A jornalista interrompe a narrativa, suspira e declara, com olhos emocionados: “Eu fui amada, fui muito amada.”

No ano seguinte – aquele agitadíssimo ano de 1968 –, lá estava Vera Daysi na UFRGS. A Fabico ainda não existia. A estudante ingressou no que ficou conhecido como a última turma de “Os filhos da Filô”: as aulas do curso de Jornalismo eram no ambiente efervescente da Faculdade de Filosofia, com agentes do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) realizando ações no Bar do Antônio – na prática, o centro social do Campus Central da UFRGS. “Isso começou a mexer com minha cabeça. Fomos uma geração muito privilegiada”, afirma.

Militância e jornalismo

Na universidade, Vera Daisy aproxima-se do movimento negro. Ingressa no Grupo Palmares, criado pelo pesquisador, historiador e poeta Oliveira Silveira (1941 – 2009). O grupo, que reunia universitários negros, era antes de tudo um espaço de discussão para o estabelecimento de uma política racial para o país. Os textos mais importantes eram de autoria do historiador Décio Freitas (1922 – 2004). Em 1971, o Palmares declarou o dia 20 de novembro – data da morte de Zumbi, do quilombo de Palmares, em 1695 – como o Dia da Consciência Negra.

Também em 1971, Vera Daisy começa na profissão. A estréia é no Jornal do Comércio. Depois, Diário de Notícias. Ela considera que teve a sorte de trabalhar com os melhores jornalistas gaúchos. Evita citar nomes, à exceção de Ademar Vargas de Freitas e Renato Gianuca. “Foram meus copidesques no momento mais rico de minha profissão.” Em 1976, Vera Daisy foi trabalhar no jornal Hoje, do Grupo RBS. Trabalhava à noite. Durante o dia, era funcionária pública concursada – em 1975, havia sido nomeada para a Legião Brasileira de Assistência (LBA), extinta em 1995, no primeiro mandato de Fernando Henrique Cardoso. Vera Daisy permaneceu na Comunicação da LBA até o final – aposentou-se no serviço público em 1997. “A LBA foi uma das minhas maiores lições, pois me permitiu entender a pobreza, a miséria”, avalia.

No Hoje, Vera Daisy deu os primeiros passos na cobertura de futebol de salão. A atuação de uma mulher neste setor era inusitada. Em 1978, depois de a RBS encerrar a experiência do Hoje, a jornalista é convidada pelo colega Emanuel Mattos para ingressar na equipe de esportes de Zero Hora. Ali, Vera Daisy confirma-se definitivamente no setor e torna-se uma pioneira ao lado de Joyce Larronda, que acompanhava automobilismo. “Foram 16 anos muito bons”, diz, sobre o período em que esteve em Zero Hora. “Tive de sair em razão de o jornal exigir que eu escolhesse entre a redação e serviço público.” No jornal, Vera Daisy colaborava ainda, a partir dos meses de dezembro, com a cobertura de carnaval. “Sou verde e rosa, sou Academia de Samba Praiana”, salienta. E teve um irmão ilustre nesta área, o jornalista Carlos Alberto Barcellos, o Roxo, figura de destaque na história do carnaval de Porto Alegre, morto em 1981.

Luta por espaço

Emociona-se novamente ao lembrar colegas como Evaldo Gonçalves, José Raimundo Manosso e Sérgio Moita. “Era uma redação de pessoas brilhantes.”

Pessoas brilhantes ou não, Vera Daisy e “outras duas ou três mulheres” que lá atuavam tinham de conviver com machismo e racismo. “Isto estava em piadas, em expressões da redação e até mesmo em chamadas no jornal”, diz. Vera Daisy teve de lutar também para conquistar espaço nas quadras de futsal. Lá, os colegas homens tinham livre acesso aos vestiários. Para ela, foi preciso negociar bastante a possibilidade de entrevistar jogadores no intervalo e no final dos jogos. Na redação do jornal, Vera Daisy também deu continuidade à militância negra, com os colegas Jones Lopes e Jorge Freitas. Com Emílio Chagas, o quarteto criou a revista Tição, em 1978. “Foi um março na imprensa negra”, afirma.

Depois de Zero Hora, uma nova fase. Em 1997, aproxima-se do jornal A Voz da Serra, de Erechim. Nesta publicação, recebe, em 1998, o prêmio ARI com uma edição especial do jornal – “Erechim Mulher”, que relatava a história do município sob a ótica feminina. “Foi a primeira vez que um prêmio ARI foi entregue a um jornal do Interior”, diz Vera Daisy. Em 2000, ao lado da jornalista Maria Lúcia Carraro Smaniotto, dona e editora de A Voz da Serra, Vera Daisy cria a Copidesque Assessoria de Comunicação e Marketing. Torna-se empresária em Erechim. Passou quatro anos no eixo Porto Alegre – Erechim.

“Não fiquei rica, mas ganhei um grande aprendizado”, diz Vera Daisy. Este aprendizado traduziu-se, principalmente, na percepção da própria capacidade e de que havia a própria história no jornalismo gaúcho. No retorno profissional à Capital, envolve-se com a militância feminina, passando a assessorar a ONG Maria Mulher. Mais adiante, a partir de 2007, ingressa na Rede Feminista de Saúde, instituição que se dedica a garantir direitos sexuais e reprodutivos das mulheres.

Para Vera Daisy, a falta de espírito crítico é um dos maiores dilemas do exercício atual do jornalismo. “Sinto falta de matérias avaliativas. Esta semana, por exemplo, uma mulher foi assassinada a facadas. A matéria dizia apenas isso, sem nenhuma contextualização, banalizando o fato. Hoje, a cada 25 minutos, uma mulher é espancada no país”, exemplifica, lembrando a morte de Viviane Almeida Lamarque, 19 anos, morta com uma facada no peito em Santa Rosa, no último dia 25 de abril. O caminho para a mudança, de acordo com Vera Daisy, começaria na academia, na formação do profissional. E relembra um conselho dos copidesques: “Quer ser um bom jornalista? Leia muito, leia de tudo. Você vai ter compreensão do mundo”. Esta, certamente, é uma lição que Vera Daisy aprendeu muito tempo antes. Ela deve ter descoberto isto enquanto descia as escadas, de madrugada, rumo à biblioteca do general Floriano.

Foto: Poti Silveira Campos

Fonte: Coletiva.net

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